Energia cara, pedágio, obras que parecem não terminar e uma saúde que ainda enfrenta filas: as prioridades do Estado não podem continuar esperando enquanto a política disputa espaço e poder
Rondônia produz energia, movimenta uma economia baseada no agronegócio, possui riquezas naturais e uma população que trabalha diariamente para fazer o Estado avançar. Mas, para o cidadão comum, uma pergunta permanece cada vez mais difícil de ignorar:
por que tanta riqueza ainda não se transforma em qualidade de vida?
A indignação começa pela energia elétrica. Rondônia abriga no Rio Madeira dois dos maiores empreendimentos hidrelétricos do país, Santo Antônio e Jirau, integrados ao Sistema Interligado Nacional. Estudos oficiais registram a dimensão dessas usinas e sua inserção no sistema nacional de geração.
Mas produzir energia não significa, automaticamente, garantir uma conta barata ao consumidor local. E é justamente essa contradição que precisa ser enfrentada politicamente: um Estado que ajuda a produzir energia para o Brasil não pode aceitar passivamente que sua população sinta um peso tão grande na conta de luz.
A discussão precisa chegar à bancada federal, ao Governo do Estado, às agências reguladoras e ao Congresso: qual é o retorno concreto dessa riqueza para quem vive em Rondônia?
PEDÁGIO: PAGAR ANTES DE VER O RESULTADO
Outro ponto que revolta motoristas, caminhoneiros, produtores e empresários é o pedágio da BR-364.
A cobrança começou oficialmente em janeiro de 2026 no trecho concedido à Nova 364, que possui 686,7 quilômetros. A própria ANTT informa que o contrato prevê cobrança, reajustes e investimentos ao longo da concessão.
O problema não é simplesmente discutir se uma rodovia concedida pode ou não ter pedágio.
A pergunta é outra:
o usuário está recebendo, na velocidade necessária, a infraestrutura pela qual está pagando?
O cidadão quer estrada segura. Quer duplicação onde for necessária. Quer manutenção. Quer atendimento. Quer fiscalização. Quer transparência.
E, sobretudo, quer saber quanto vai pagar e o que receberá em troca.
A ANTT informa que existem mecanismos de desconto para usuários frequentes e que a concessão prevê investimentos estruturantes.
Mas, para quem utiliza a BR-364 todos os dias, especialmente quem trabalha com transporte e produção, a conta não é abstrata: cada aumento no custo da logística pode chegar ao preço dos alimentos, dos insumos e dos produtos consumidos pela população.
O “PARE E SIGA” QUE VIROU SÍMBOLO
E há ainda uma imagem que já se tornou quase simbólica para quem percorre as estradas de Rondônia: o interminável “pare e siga”.
Obras são necessárias. Intervenções precisam acontecer. Mas o que o cidadão não aceita é a sensação de que determinados problemas se prolongam indefinidamente enquanto a cobrança e os custos continuam chegando pontualmente.
O cidadão paga pontualmente. A obra também precisa cumprir prazo.
E A SAÚDE?
Talvez seja aqui que a indignação seja mais profunda.
Porque quando falta infraestrutura, o prejuízo pode ser financeiro. Quando falta saúde, o prejuízo pode ser a própria vida.
O planejamento oficial do Estado para 2026 reconhece problemas relacionados a filas, escassez de especialidades médicas e leitos e prevê ações justamente para tentar reduzir essas deficiências.
Ao mesmo tempo, documentos oficiais mostram que a rede estadual continua enfrentando demandas relevantes de atendimento, enquanto a Assembleia Legislativa registra cobranças por informações sobre filas para diferentes exames e procedimentos.
Em julho, a Assembleia também autorizou o remanejamento de R$ 231,5 milhões originalmente destinados à implantação do Hospital de Urgência e Emergência de Rondônia (Heuro) para despesas da Secretaria de Estado da Saúde, incluindo custeio hospitalar, contratos e medicamentos.
Isso precisa ser explicado à população com absoluta transparência.
Por que faltam recursos para aquilo que deveria ser prioridade?
OITO ANOS DE GOVERNO: QUAL É O LEGADO?
O atual governo de Rondônia chegou ao poder em 2019. Em 2026, aproxima-se do encerramento de um ciclo de oito anos.
O governo apresenta sua própria avaliação e afirma ter realizado investimentos e expansão de serviços na saúde entre 2019 e 2025.
Mas uma gestão pública não deve ser avaliada apenas por seus anúncios.
Deve ser avaliada pelo que o cidadão encontra quando precisa do Estado.
Se o paciente continua enfrentando dificuldades para conseguir atendimento, se o trabalhador enfrenta estradas problemáticas, se o produtor arca com custos logísticos elevados e se a população não percebe a riqueza do Estado retornando em qualidade de vida, existe uma pergunta inevitável:
O QUE DE FATO MUDOU NA VIDA DO RONDONIENSE?
E essa pergunta não é de oposição.
É uma pergunta de cidadania.
RONDÔNIA NÃO PODE SER REFÉM DA POLÍTICA
O cidadão de Rondônia não pode continuar sendo lembrado apenas em época de eleição.
Não pode ser tratado como eleitor durante a campanha e como contribuinte durante o restante do mandato.
O Estado precisa discutir energia acessível, saúde eficiente, estradas seguras, logística competitiva, educação de qualidade, segurança pública, saneamento, emprego e renda.
Precisa discutir planejamento de longo prazo.
Precisa discutir fiscalização.
Precisa discutir responsabilidade com o dinheiro público.
E precisa, principalmente, cobrar resultados.
Porque Rondônia não é pobre em recursos.
Pobre não pode ser a prioridade dada ao cidadão.
Temos energia. Temos produção. Temos território. Temos trabalhadores. Temos potencial econômico.
O que falta é transformar tudo isso em desenvolvimento que chegue à casa do rondoniense.
Enquanto a política continuar concentrada em alianças, cargos, disputas internas e projetos eleitorais, os problemas reais continuarão esperando.
E o cidadão?
Continua pagando a conta.
Pagando a energia.
Pagando o combustível.
Pagando o pedágio.
Pagando impostos.
E, muitas vezes, pagando até mesmo com a própria saúde pela demora de um atendimento.
Rondônia precisa deixar de ser apenas um Estado de riquezas. Precisa ser um Estado onde essas riquezas pertençam, em resultados concretos, também ao seu povo.
Por Valéria Souza — Jornalista


