sexta-feira, setembro 11, 2026
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Quando o ambiente de trabalho vira campo de batalha: por que algumas mulheres transformam a convivência em competição?

Por Valéria Souza – Jornalista

Existe uma pergunta que muita gente faz em silêncio, mas raramente tem coragem de colocar na mesa: é mais fácil trabalhar entre homens do que entre mulheres?

A resposta não é simples — e a ciência não autoriza dizer que homens são melhores colegas ou que mulheres são naturalmente mais conflituosas. Mas pesquisas realizadas em diferentes países mostram algo que merece reflexão: a competição no ambiente profissional pode assumir formas diferentes conforme o contexto, os papéis sociais, a hierarquia e a percepção de ameaça.

Uma meta-análise que reuniu 110 estudos e 409 resultados experimentais encontrou, em média, maior disposição masculina para entrar em competições formais. Porém, a própria pesquisa mostra que essa diferença diminui ou praticamente desaparece em determinados contextos, especialmente fora dos tradicionais experimentos de laboratório.

Ou seja: não é simplesmente uma questão de “homens contra mulheres”. É uma questão de ambiente, poder, reconhecimento e competição.

E é justamente aí que começa uma discussão incômoda.

Em determinados ambientes profissionais, principalmente quando poucas pessoas disputam espaço, promoção, reconhecimento ou proximidade com a liderança, o trabalho pode deixar de ser um lugar de cooperação e se transformar em uma espécie de arena silenciosa.

O problema é que nem toda disputa acontece de maneira aberta.

Às vezes, ela aparece disfarçada de preocupação.

“Estou apenas tentando ajudar.”

“Só estou alertando a chefia.”

“Não tenho nada contra ela.”

“É porque ela precisa aprender.”

Enquanto isso, surgem comentários nos corredores, grupos que se fecham, informações que deixam de circular, interpretações maliciosas, boatos e pequenas tentativas de descredibilização.

A guerra não precisa ter gritos. Às vezes, ela acontece em silêncio.

Pesquisas experimentais também mostram que o comportamento competitivo das mulheres não é fixo. Um estudo realizado no Quênia, publicado em 2025, encontrou que mulheres se mostraram significativamente mais competitivas quando competiam exclusivamente com outras mulheres do que em determinadas situações de competição mista. O resultado reforça uma conclusão importante: o comportamento competitivo depende muito de quem está competindo, das regras e do contexto.

Outro estudo mostrou que o simples papel social atribuído à pessoa pode modificar sua disposição para competir. Quando mulheres eram colocadas no papel de gestoras ou responsáveis pelo sustento, sua disposição para competir aumentava consideravelmente.

Portanto, talvez a pergunta esteja errada.

Não deveríamos perguntar se “é melhor trabalhar com homens ou mulheres”.

Deveríamos perguntar:

Que tipo de cultura estamos construindo dentro das organizações?

Porque uma mulher não precisa destruir outra mulher para crescer.

Uma profissional não precisa diminuir outra para provar competência.

Uma líder não precisa criar subordinadas inseguras para preservar autoridade.

E uma colega não precisa transformar a conquista da outra em uma ameaça pessoal.

Existe espaço para mais de uma mulher competente na mesma sala.

Existe espaço para mais de uma mulher ocupar cargos de liderança.

Existe espaço para reconhecimento sem humilhação.

E existe espaço para discordância sem perseguição.

O verdadeiro problema começa quando o sucesso de uma pessoa passa a ser interpretado como o fracasso da outra.

É nesse momento que o ambiente de trabalho deixa de ser equipe e passa a ser território.

E território, quando dominado pelo ego, produz panelas, disputas e alianças.

Talvez seja por isso que algumas pessoas tenham a impressão de que trabalhar em determinados ambientes femininos é mais desgastante. Não necessariamente porque as mulheres sejam mais difíceis, mas porque relações profissionais marcadas por comparação, insegurança e disputa podem transformar qualquer ambiente — masculino ou feminino — em um campo de batalha.

Homens também competem. Mulheres também competem. Homens também fazem alianças. Mulheres também fazem alianças.

A diferença está menos no gênero e muito mais na cultura que permite ou recompensa determinados comportamentos.

Um ambiente profissional saudável não é aquele onde ninguém discorda.

É aquele onde ninguém precisa destruir o outro para sobreviver.

No final das contas, talvez a maior maturidade profissional seja compreender uma verdade simples:

A competência da colega não diminui a sua.
A promoção dela não apaga o seu trabalho.
O reconhecimento dela não rouba o seu valor.

Porque quando duas mulheres percebem que não precisam disputar a mesma luz, elas deixam de competir por espaço e começam a ampliar o espaço para todas.

E isso, sim, é força.

Não a força de quem vence uma batalha contra a própria colega.

Mas a força de quem consegue crescer sem precisar derrubar ninguém.

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