Em toda instituição pública, há espaço para críticas. Elas são necessárias, saudáveis e podem contribuir para corrigir erros, melhorar processos e aperfeiçoar o serviço oferecido à população. O problema começa quando a reclamação deixa de ser instrumento de melhoria e passa a ser, para alguns, praticamente uma profissão.
Há servidores que parecem ter desenvolvido uma habilidade especial para enxergar problemas em absolutamente tudo. Nada está bom. Nenhuma decisão é correta. Nenhuma mudança agrada. Toda orientação é interpretada como afronta. Toda cobrança é transformada em perseguição.
Enquanto a instituição precisa de comprometimento, produtividade e responsabilidade, esse tipo de comportamento costuma caminhar na direção contrária: muito tempo no celular, longas conversas no cafezinho, pouca disposição para executar as próprias atribuições e, ainda assim, uma enorme energia para comentar o trabalho dos outros.
Mais preocupante é quando a insatisfação deixa de ser individual e passa a ser usada para criar desconfiança dentro da própria instituição. Pessoas são colocadas umas contra as outras, decisões da liderança são distorcidas e conflitos são alimentados nos corredores, nos grupos de mensagens e nas conversas informais.
E quando chega a cobrança?
A narrativa muda.
O servidor que antes criticava tudo passa a se apresentar como vítima. A cobrança por produtividade vira “perseguição”. A exigência de responsabilidade vira “perseguição pessoal”. A necessidade de cumprir horário, entregar resultados e respeitar regras passa a ser apresentada como uma injustiça.
Então começa outra etapa: contar a própria versão para todos.
A história atravessa os muros da instituição, chega aos amigos, aos conhecidos, aos grupos de conversa e, em pouco tempo, circula pela cidade. O servidor se transforma, na própria narrativa, no grande injustiçado. Pouco importa se existem fatos, documentos, responsabilidades ou resultados que contradigam a versão apresentada. A repetição da história pretende transformá-la em verdade.
Mas existe uma diferença fundamental entre ser injustiçado e ser contrariado.
Também existe uma diferença entre denunciar um problema e reclamar de tudo; entre exercer um direito e fugir das próprias responsabilidades; entre fiscalizar a gestão e sabotar a confiança na equipe; entre ser vítima de uma injustiça e utilizar a condição de vítima para nunca ser cobrado.
O serviço público não pertence ao servidor. Pertence à sociedade.
O cidadão que procura uma repartição pública não está interessado nas disputas internas, nas intrigas dos corredores ou nas justificativas de quem não quer trabalhar. Ele espera atendimento, eficiência, respeito e resultado.
Servidor público tem direitos, evidentemente. Tem direito a condições dignas de trabalho, respeito, defesa e tratamento justo. Mas também tem deveres. E um deles é compreender que estabilidade não significa imunidade à cobrança, assim como discordância não significa perseguição.
Nenhuma instituição é perfeita. Toda liderança pode errar. Toda gestão pode e deve ser questionada quando necessário. Mas crítica sem responsabilidade, reclamação sem proposta e vitimização permanente não constroem uma instituição melhor.
No fim, talvez a pergunta mais importante não seja “quem está perseguindo quem?”, mas:
Quem está realmente fazendo a sua parte?
Porque, enquanto alguns gastam energia tentando provar que são injustiçados, outros simplesmente cumprem sua missão, atendem a população, resolvem problemas e seguem trabalhando.
E existe uma verdade incômoda que nenhuma narrativa consegue esconder para sempre:
quem trabalha deixa resultados; quem apenas reclama deixa versões.


