Valéria Souza* A DIRETORA QUE NINGUÉM ENXERGOU

0
51

Era uma escola como tantas outras.

Todos os dias, crianças chegavam carregando mochilas, sonhos, dificuldades e histórias que nem sempre cabiam dentro de uma sala de aula. Do outro lado da porta da direção estava uma mulher que havia escolhido dedicar sua vida à educação.

Ela era diretora.

E, todos os dias, tentava fazer o impossível parecer possível.

Resolvia problemas, atendia famílias, acolhia alunos, ouvia professores, buscava soluções e enfrentava as inúmeras dificuldades de uma escola pública. Quando uma família precisava de ajuda, ela procurava uma maneira de atender. Quando surgia um problema, queria resolvê-lo.

Exigia de sua equipe aquilo que também cobrava de si mesma:

comprometimento, responsabilidade, seriedade e respeito.

Mas havia uma parte daquela mulher que quase ninguém conhecia.

Ela era autista.

Seu diagnóstico existia, mas não estava estampado em sua testa.

E talvez esse seja um dos maiores ensinamentos daquela história.

Porque algumas pessoas esperavam que o autismo tivesse um rosto específico, um comportamento específico, uma maneira específica de existir.

E, quando não encontraram aquilo que esperavam, começaram os julgamentos.

“Ela é arrogante.”

“É difícil de lidar.”

“É orgulhosa.”

“Não sabe conversar.”

“É literal demais.”

“Não tem jogo de cintura.”

O que muitos interpretavam como arrogância poderia ser uma comunicação mais direta.

O silêncio poderia ser uma necessidade de reorganização.

As horas em sua sala, concentrada em determinada tarefa, poderiam ser momentos de hiperfoco.

A dificuldade em tolerar determinadas situações poderia estar relacionada à sobrecarga.

Mas ninguém perguntou.

Ninguém procurou compreender.

Preferiram interpretar.

E, em uma escola cheia de profissionais da educação, havia uma contradição difícil de ignorar.

Muitas daquelas profissionais eram pedagogas.

Trabalhavam diariamente com crianças autistas.

Falavam sobre inclusão.

Falavam sobre acolhimento.

Falavam sobre respeito às diferenças.

Mas, diante de uma colega autista, aparentemente enxergaram apenas aquilo que julgavam inadequado.

A pergunta começou a ecoar silenciosamente pelos corredores:

Como podemos ensinar inclusão às crianças se ainda não aprendemos a praticá-la entre adultos?

Talvez a resposta seja desconfortável.

Porque conhecer autismo teoricamente não significa necessariamente compreender todas as formas de uma pessoa autista existir.

E nenhum profissional deveria presumir que consegue “identificar facilmente” todo autista apenas pela aparência ou pelo comportamento.

O espectro é amplo.

Há pessoas que passam anos sendo interpretadas como frias, difíceis, rígidas, estranhas ou antissociais antes de compreenderem que determinadas características de sua personalidade e comunicação estavam relacionadas ao autismo.

Naquela escola, entretanto, o problema não era apenas não terem percebido.

Era terem julgado antes de compreender.

A diretora começou a perceber que cada comentário, cada crítica e cada interpretação superficial deixava uma marca.

E para uma pessoa autista, viver constantemente em um ambiente de cobrança emocional, conflitos, julgamentos e necessidade de mascaramento pode significar uma carga enorme.

Até que um dia ela fechou a porta da sala.

Sentou-se.

Silêncio.

Não queria conversar.

Não queria explicar.

Não queria justificar novamente quem era.

Precisava apenas de alguns minutos para reorganizar tudo aquilo que estava acontecendo dentro dela.

Do lado de fora, porém, alguém poderia novamente interpretar aquele silêncio como orgulho.

E talvez essa seja a parte mais triste da história:

quando alguém sofre em silêncio e as pessoas transformam o sofrimento em defeito de personalidade.

A escola continuou funcionando.

As aulas continuaram.

As reuniões aconteceram.

As crianças continuaram chegando.

Mas aquela diretora começou a compreender uma coisa que talvez ninguém tivesse percebido:

não era apenas o trabalho que estava cansando.

Era precisar, todos os dias, explicar sua maneira de existir para pessoas que diziam defender a inclusão.

Ela não precisava que todos concordassem com suas decisões.

Uma liderança pode e deve ser questionada.

Mas questionar uma decisão é diferente de atacar uma personalidade.

Discordar é diferente de humilhar.

Dar feedback é diferente de rotular.

E cobrar profissionalismo não dá a ninguém o direito de transformar diferenças neurológicas em defeitos morais.

Aquela história deixou uma pergunta que ultrapassou os muros da escola:

Que tipo de inclusão estamos ensinando às crianças se não conseguimos respeitar as diferenças dos próprios adultos?

Talvez a verdadeira formação de um educador não esteja apenas nos diplomas pendurados na parede.

Talvez esteja na capacidade de olhar para uma pessoa e pensar:

“Eu ainda não entendi você. Então, antes de julgá-la, vou tentar compreendê-la.”

Porque autistas não precisam de um mundo superficialmente educado.

Precisam de pessoas dispostas a serem verdadeiramente humanas.

E talvez a maior hipocrisia seja defender a inclusão no discurso enquanto se exclui, rotula e machuca alguém na prática.

Aquela diretora não precisava ser compreendida por ser perfeita.

Precisava ser compreendida porque é humana.

E, no fim, talvez ninguém tenha percebido seu autismo porque estavam ocupados demais procurando seus defeitos.

Às vezes, o diagnóstico não é invisível.
Invisível é o olhar de quem não aprendeu a enxergar além dos próprios preconceitos.

Valéria Souza – Jornalista

#Autismo #TEA #Inclusão #Educação #Respeito #Capacitismo #Neurodiversidade #InclusãoDeVerdade #AutismoNoAmbienteEscolar #EducaçãoInclusiva #Conscientização #RespeitoÀsDiferenças #ValériaSouza

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here