Bullying: a violência que começa com uma “brincadeira” e pode deixar marcas para a vida inteira

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Humilhações, exclusão e ataques nas redes sociais afetam a saúde emocional de crianças e adolescentes. Especialistas e autoridades alertam para a necessidade de prevenção, acolhimento e responsabilização.

Uma ofensa disfarçada de brincadeira, um apelido repetido diariamente, risadas diante de uma pessoa constrangida ou a exclusão intencional de um grupo. Para quem observa de fora, essas situações podem parecer pequenas. Para quem as enfrenta todos os dias, porém, podem representar uma experiência dolorosa, capaz de comprometer a autoestima, a aprendizagem e a maneira de se relacionar com o mundo.

O bullying é uma forma de violência que ainda precisa ser tratada com mais seriedade pela sociedade. Embora o tema seja frequentemente associado ao ambiente escolar, suas consequências podem ultrapassar os muros das escolas e atingir a vida familiar, social e emocional das vítimas.

O problema se agrava quando as agressões são minimizadas por frases como “é só uma brincadeira”, “isso sempre existiu” ou “você precisa aprender a se defender”. Ao normalizar a humilhação, a sociedade corre o risco de transformar o sofrimento de uma pessoa em motivo de entretenimento para outras.

Os números revelam a dimensão do problema

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos relataram ter sofrido provocações repetidas que os deixaram magoados, ofendidos ou humilhados nos 30 dias anteriores à pesquisa.

O levantamento também apontou que 12,7% dos adolescentes relataram sofrer bullying cibernético nas redes sociais. Na Região Norte, o percentual chegou a 15,8%, o maior entre as regiões brasileiras.

Os dados mostram que a violência entre estudantes não pode ser tratada como um episódio isolado ou um simples conflito entre colegas. Trata-se de uma questão que exige atenção das famílias, das instituições de ensino e do poder público.

Fonte: IBGE — Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024.

Quando a humilhação se torna rotina

O bullying pode se manifestar por meio de agressões físicas, insultos, apelidos pejorativos, ameaças, disseminação de boatos, discriminação e isolamento social intencional. Também pode ocorrer no ambiente digital, por meio de comentários ofensivos, exposição de imagens, mensagens humilhantes e ataques em grupos ou redes sociais.

Nem toda discussão ou desentendimento caracteriza bullying. A intimidação sistemática envolve comportamentos intencionais e repetitivos, geralmente marcados por um desequilíbrio de poder entre quem agride e quem é alvo das agressões.

A vítima nem sempre consegue reagir. Algumas pessoas se calam por medo de sofrer novas humilhações, outras sentem vergonha de contar o que está acontecendo e há aquelas que passam a acreditar que merecem o tratamento recebido.

É justamente nesse silêncio que o problema pode se aprofundar.

As consequências vão além da sala de aula

O sofrimento provocado pelo bullying pode se refletir em dificuldades de concentração, queda no rendimento escolar, medo de frequentar determinados ambientes, isolamento, insegurança e baixa autoestima. Em algumas situações, também pode estar associado a sintomas de ansiedade e depressão.

É importante destacar que nem todas as vítimas apresentam os mesmos sinais, e as consequências variam de pessoa para pessoa. Ainda assim, mudanças persistentes de comportamento precisam ser observadas com atenção.

Em casos graves, o sofrimento pode se associar a crises emocionais e pensamentos de autolesão ou suicídio. Isso não significa que o bullying, isoladamente, explique todas as tragédias, mas evidencia a importância de reconhecer sinais de sofrimento e oferecer ajuda antes que a situação se agrave.

Por trás de uma criança que não quer ir à escola, de um adolescente que se afasta dos amigos ou de alguém que passa a evitar fotografias e encontros sociais, pode existir uma dor que ainda não encontrou espaço para ser ouvida.

O silêncio dos adultos também precisa ser questionado

Combater o bullying não é responsabilidade exclusiva da vítima. Quando uma criança denuncia agressões e não recebe acolhimento, quando os responsáveis tratam o problema como exagero ou quando a escola ignora situações recorrentes, a mensagem transmitida é a de que o sofrimento não importa.

As instituições de ensino precisam estabelecer procedimentos de prevenção, acolher denúncias, investigar os episódios e proteger os estudantes envolvidos. A resposta deve considerar a gravidade dos fatos, a segurança da vítima e as medidas educativas e legais cabíveis.

Às famílias, cabe ouvir sem julgar, evitar culpabilizar quem sofre e manter diálogo com a escola. Aos colegas que presenciam as agressões, é importante não incentivar as humilhações, não compartilhar conteúdos ofensivos e buscar ajuda de adultos responsáveis.

Também é necessário acompanhar quem pratica o bullying, estabelecer limites e promover responsabilização. Compreender os fatores envolvidos no comportamento agressivo não significa justificar a violência.

Bullying também tem consequências legais

No Brasil, a Lei nº 13.185/2015 instituiu o Programa de Combate à Intimidação Sistemática. Posteriormente, a Lei nº 14.811/2024 incluiu no Código Penal o crime de intimidação sistemática, conhecido como bullying, e estabeleceu tratamento específico para o cyberbullying.

Pela legislação, o bullying pode resultar em multa quando a conduta não constituir crime mais grave. Para o cyberbullying, a previsão legal é de reclusão de dois a quatro anos e multa, também quando não houver crime mais grave. A aplicação depende das circunstâncias e das regras legais pertinentes.

A legislação reforça que humilhar, intimidar e perseguir sistematicamente alguém não deve ser encarado como uma conduta sem importância.

Prevenir é mais do que fazer campanhas

Falar sobre bullying em datas específicas é importante, mas insuficiente quando não existe continuidade. A prevenção exige educação para o respeito às diferenças, formação dos profissionais, canais seguros de denúncia e acompanhamento dos casos.

Também é necessário ensinar crianças e adolescentes a reconhecer os limites entre brincadeira e violência, compreender os efeitos de suas atitudes e desenvolver responsabilidade pelo modo como tratam os outros.

A internet amplia esse desafio. Uma agressão presencial pode terminar quando a pessoa vai embora, mas uma publicação humilhante pode continuar circulando, ser compartilhada inúmeras vezes e alcançar públicos muito maiores.

Por isso, a educação digital precisa fazer parte das estratégias de prevenção.

Uma sociedade que precisa aprender a não rir da dor alheia

O bullying não deve ser ignorado até que suas consequências se tornem públicas ou que uma situação extrema provoque comoção. A prevenção começa quando uma ofensa deixa de ser considerada engraçada, quando uma denúncia é levada a sério e quando os adultos compreendem que respeito não é um favor, mas uma condição básica para a convivência.

Nenhuma criança deveria sentir medo de entrar na escola. Nenhum adolescente deveria acreditar que precisa suportar humilhações para ser aceito. E nenhuma pessoa deveria precisar chegar ao limite do sofrimento para que alguém reconheça a gravidade do que está acontecendo.

O desafio é coletivo: famílias, escolas, autoridades e sociedade precisam deixar de tratar o bullying como algo normal e assumir o compromisso de enfrentá-lo com responsabilidade.

Porque uma brincadeira só é brincadeira quando não transforma outra pessoa em alvo de sofrimento.

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