Nascido da necessidade dos produtores rurais de enfrentar os desafios da Amazônia, o veículo artesanal ganhou as pistas e transformou o município de Rondônia na Capital Nacional do Jerico.
*Por Valéria Souza
Quem vê os motores roncando e a lama voando alto no complexo turístico do “Jericódromo” durante a 18ª Corrida Nacional de Jericos Motorizados talvez não imagine que essa grande festa popular nasceu, literalmente, do isolamento e do improviso do homem do campo. Mais do que um esporte radical, a corrida é a celebração viva da história da colonização de Alto Paraíso.
A Necessidade Gerando a Inovação
A história do “jerico” remonta às origens do município, na década de 1970, quando o Incra criou o Projeto de Assentamento Marechal Dutra no então Território Federal de Rondônia. Com a chegada dos pioneiros para desbravar a região e focar no agronegócio e na extração madeireira, surgiu um obstáculo gigantesco: o período de fortes chuvas amazônicas e as estradas de terra intrafegáveis.
Carros comuns e caminhonetes da época atolavam facilmente. Diante disso, a criatividade dos agricultores e mecânicos locais entrou em ação. Misturando chassis velhos, restos de carcaças de carros, caminhões e motores rústicos estacionários (geralmente movidos a diesel ou pequenos propulsores de baixo custo), eles criaram o Jerico. Um veículo sem para-lamas, cabines ou luxo, mas com força bruta suficiente para atravessar qualquer atoleiro e escoar a produção agrícola.
Como a Ferramenta de Trabalho Virou Competição
Não demorou muito para que o espírito competitivo falasse mais alto. Nas poucas horas de lazer ou nos encontros de fim de semana, os construtores começaram a testar qual veículo aguentava mais o tranco e corria mais rápido em meio à lama. Embora a velocidade máxima raramente passasse dos 30 km/h, o ronco rústico e a engenhosidade das máquinas começaram a atrair a atenção de toda a população.
Percebendo o potencial de engajamento desse fenômeno puramente local, em 2002, a prefeitura municipal decidiu oficializar as disputas e incluí-las no calendário oficial de comemorações da emancipação política de Alto Paraíso. O sucesso foi imediato.
A “Fórmula 1 da Amazônia”
O que começou com uma brincadeira entre vizinhos virou um megaevento que já ganhou projeção nacional (sendo carinhosamente apelidado de a “Fórmula 1 da Amazônia”). Hoje, a competição atrai dezenas de pilotos e um público que frequentemente ultrapassa as 30 mil pessoas, injetando milhões na economia do comércio, hotelaria e gastronomia local.
Nos dias 27 e 28 de junho de 2026, a pista de aproximadamente 1.000 metros por volta de pura lama preta receberá a 18ª edição do circuito, provando que a “ideia de jerico” dos pioneiros de Alto Paraíso se transformou no maior orgulho cultural e turístico da região.


