E SIM CANSADO DE PESSOAS?
Uma reflexão sobre autismo, solitude e o direito de simplesmente não querer estar disponível o tempo inteiro.
Vivemos em uma sociedade que desconfia de quem prefere o silêncio.
Se você não conversa, é estranho.
Se não participa, é antissocial.
Se prefere ficar sozinho, dizem que existe algum problema.
Mas será que existe?
Para algumas pessoas autistas, a solitude pode ser um lugar de descanso.
Um momento para diminuir estímulos.
Organizar pensamentos.
Recuperar energia.
Respirar.
E isso não deveria ser confundido com tristeza.
Mas existe uma palavra que costuma aparecer rapidamente:
“ARROGANTE.”
Porque algumas pessoas autistas são diretas.
Não gostam de conversas superficiais.
Não conseguem fingir interesse.
Não toleram determinados ambientes.
E preferem o silêncio.
Isso é arrogância ou simplesmente uma forma diferente de existir?
O AUTISTA NÃO É ANTISSOCIAL.
TALVEZ ELE SÓ ESTEJA CANSADO DA SUPERFICIALIDADE.
Aqui começa a polêmica:
POR QUE PRECISAMOS OBRIGAR TODO MUNDO A SER SOCIÁVEL?
Por que uma pessoa precisa sorrir?
Conversar?
Participar?
Cumprimentar todo mundo?
Estar disponível?
Para provar que é uma “boa pessoa”?
Mas atenção:
SOLITUDE NÃO É A MESMA COISA QUE SOLIDÃO.
Solitude pode ser escolhida.
Solidão pode ser imposta.
Uma pessoa autista pode escolher ficar sozinha porque precisa de paz.
Mas também pode estar isolada porque foi rejeitada, ridicularizada ou excluída.
E essa diferença precisa ser enxergada.
O problema começa quando a sociedade transforma a diferença em defeito.
“Ele é frio.”
“Ela é difícil.”
“Não gosta de ninguém.”
“É esnobe.”
“Precisa mudar.”
Talvez não seja a pessoa autista que precise mudar.
Talvez seja o nosso olhar.
E existe uma pergunta ainda mais desconfortável:
QUANTOS AUTISTAS ESTÃO SOZINHOS POR ESCOLHA… E QUANTOS FORAM EMPURRADOS PARA A SOLIDÃO PELO PRECONCEITO?
Essa pergunta deveria incomodar.
Porque inclusão não é simplesmente colocar alguém dentro de uma sala.
É fazer com que essa pessoa tenha liberdade para ser quem é dentro dela.
Não precisamos romantizar o isolamento.
Nem transformar todo silêncio em sofrimento.
Precisamos perguntar:
“Você quer companhia?”
“Você precisa de espaço?”
“Como posso respeitar seus limites?”
Às vezes, acolher alguém significa simplesmente não invadir o seu silêncio.
NEM TODO AUTISTA QUE ESTÁ SOZINHO ESTÁ PERDIDO.
Às vezes, ele apenas encontrou no silêncio aquilo que não encontrou no barulho:
PAZ.
E talvez a verdadeira inclusão comece quando entendermos que:
NÃO É PRECISO SER IGUAL PARA MERECER RESPEITO.
Valéria Souza – Jornalista
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